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Sobre o Caos - Babi

Histórica e culturalmente, inclusive no aspecto educacional, somos orientados a tomarmos decisões sobre “o que seremos quando crescer” ainda muito novos, entre 16 e 18 anos, e sem termos exercitado, exaustivamente, as nossas aptidões. Somos, de um modo geral, avaliados para sermos “nota sete em tudo”, sem darmos atenção e foco àquilo que somos nota 10. Assim, sem a valorização pelo “esforço”, já que você “não precisa ser nota 10”, a tendência é a formação de pessoas sem o autoconhecimento daquilo em que deveriam atribuir maior valor e significado, para chegar onde querem, na execução disciplinar daquele talento.

Acabamos, então, por fazer o curso de graduação que teoricamente tem mais a ver com nossa melhor nota na escola - ou até escolhendo por exclusão, não por identificação - sem, também, termos vivenciado oportunidades de averiguar e conhecer o que é que se faz depois que se estuda aquele curso, quais são as atuações e atribuições e, sobretudo, se as habilidades requeridas são as mesmas que você acha que você tem e gostaria ainda mais de potencializar.

Com o passar dos anos, então, vamos somando uma série de atividades realizadas, mas sem necessariamente atribuirmos importância e significado, pois vamos fazendo porque tem que ser feito.

Recentemente, os jovens da geração Y, em diante, começaram a questionar este modelo em fases anteriores às que até então aconteciam, ou seja, prematuramente para o mercado de trabalho.

De um modo geral, se fazer a pergunta “estou combinando a minha capacidade com o propósito do meu trabalho?” acontecia depois dos 30 anos, e, mesmo assim, por um número reduzido de pessoas e, de um modo geral, por aquelas que não tinham constituído família e se sentiam à vontade em se questionar do porquê da infelicidade e investigar os riscos de mudar de profissão, “naquela altura da vida”. Hoje estes questionamentos vêm por volta dos 16 a 18 anos - uns até os 24 anos - já que os jovens da atualidade não querem “fazer por fazer” : fazer sentido é passo um para a escolha da “profissão”.

Por outro lado, pr’aqueles que não são das novas gerações, o momento em que passam pela inquietação, reconhecendo que os fatores externos, mesmo que mudados, não são mais suficientes para preenchimento de alguns vazios, sem muita alternativa de nova ação, entram em colapso consigo mesmo, e reconhecem o medo de puxarem o freio de mão e recomeçar.

Na grande maioria das vezes, as pessoas que vivem este momento do caos têm particularmente o medo de assumir que “fizeram a escolha errada” e, ao mesmo tempo, julgam que o próprio tempo é pouco para serem aquilo que deveriam ter sido lá atrás e, ao observarem as novas possibilidades de exercerem as atividades que acham que querem, se debatem com a insegurança de serem julgados, de se mostrarem vulneráveis na constatação de que a vida que vivem não faz mais sentido e que, mesmo assim, não têm a coragem de “largar tudo”, trocando o certo, pelo duvidoso.

A confusão enfrentada de que o dia a dia não faz mais sentido, com a insegurança de dar um passo no escuro, traz uma paralisia que corrói os sentidos e te leva a uma auto-sabotagem inconsciente, porque como você não consegue lidar com estas verdades de questionamento das escolhas feitas, você acaba cedendo para válvulas de escape muitas vezes negativas, buscando ignorar, já que não pode esquecer.

Neste autoflagelo de se lamentar, de que sempre poderia ter tomado decisões melhores, muitas pessoas acabam por ficar no ambiente que traz insatisfação do que lidar com a gama de novas escolhas e, eventualmente, se arrepender e não poder “voltar”.

Para aqueles que se identificam com este estágio, pode ser que ajude se você começar reconhecendo que aos 16, 18 ou 20 anos você era uma pessoa que não é mais e que, hoje, na velocidade do mundo, naturalmente a incompatibilidade parece maior.

Para o psicólogo Barry Schwartz, um primeiro caminho é você limitar as opções que tem, de modo que você não se sobrecarregue da responsabilidade de escolher, trazendo para si mais clareza do que poderia te fazer sentir mais satisfeito e, depois, avaliar formas concretas de averiguar quais atividades estão mais próximas a lhe atender, utilizando-se de seus talentos e aspirações, sem que o dispêndio emocional daquela realização se torne insustentável.

Principalmente, avalie a importância das relações no seu processo de transição, o quanto valoriza e o quanto gostaria de incluir as pessoas mais importantes da sua vida neste momento, porque na busca por si mesmo, ser incompreendido é um acontecimento certo e que, se não (re)endereçado para novas relações, vai te levar ainda mais à solidão e ao desgaste cada vez mais frequente trazido pelo enfrentamento das "forças antissociais".

Babi

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